Quem Tem Medo de Perder, Tem Medo de Viver!

*Márcio Lúcio de Miranda

Encontro dos Magistrados da Justiça do Trabalho

28 de Agosto de 2009

Araxá - MG

 

Ao ser convidado para fazer uma palestra para um grupo de magistrados da Justiça do Trabalho, no primeiro momento, me senti feliz e valorizado. Após aceitar fiquei preocupado. No minuto seguinte, me coloquei a pensar o que eu diria para um grupo tão seleto, respeitado e valorizado na sociedade.

Este convite partiu de um juiz do trabalho, que conviveu comigo, durante 24 meses, em um dos meus cursos de Treinamento de Habilidades de Relacionamento Interpessoal.

Vivemos muitas coisas naquele grupo, coisas que nos tocaram e que fizeram as nossas vidas mais leves e mais prazerosas.

Agora, estava ele, ali, naquele telefone, convidando-me para dizer alguma coisa que pudesse tornar a vida daquelas pessoas mais leve e mais prazerosa.

Entendi, naquele momento, que ele estava querendo partilhar com seus pares algo que tinha sido de valor para ele. Era a verdadeira expressão do companheirismo e de fraternidade.

Mas, o que será que ele queria partilhar? Foi quando, então, ele sugeriu: - Fale sobre perdas e ganhos.

Imediatamente surgiu na minha mente o título desta palestra. Quem Tem Medo de Perder Tem Medo de Viver.

Demorou alguns minutos para que eu desse a conta de que os magistrados do trabalho lidam, no dia a dia, com situações de perdas e ganhos. Cabem a eles decidir quem vai ganhar e quem vai perder, e que esse é o grande drama de nossa existência.

 A vida é um processo inevitável de ganhos e perdas. Toda vez que ganhamos aquilo que escolhemos perdemos aquilo que deixamos de escolher. Perdas e ganhos se entrelaçam como a noite e o dia.

 

 

Cada dia vivido é um dia a menos na nossa existência. A vida escorre por entre os nossos dedos, independente da maneira como a vivemos.

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Acorrentados nas nossas posses ou no desejo de possuir, somos prisioneiros de um destino imprevisível. Brigamos para não perder, fazemos guerras para ganhar e nesse desatino de uma vida insensata nos esquecemos do prioritário – viver.

 

Não há como viver, morrendo de medo de morrer! Quem diz que está com medo de morrer, não está vivendo, está como medo de que aconteça o que já está acontecendo...

Perder... Perder a vida... Perder as posses... Perder as pessoas amadas... Perder a possibilidade de ganhar... Perder a liberdade...

 Estes são os pilares sobre os quais se assenta todo o trabalho do judiciário. A ele recorrem todos os que perderam ou temem perder algo.

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 


Os magistrados são homens e mulheres treinados para lidar com as perdas e os ganhos. Decidem quem perde e quem ganha. Fazedores de derrotas e vitórias, de lutos e de glórias, tudo em nome da justiça dos homens.

 

 

 Perder e ganhar - esta é a lei da vida, da qual ninguém escapa.

 
 

 

 

 

 

 

 

 


Todos nós caminharemos pela mesma estrada e atravessaremos o mesmo umbral. Eis aí, um grande questionamento: O que é saber viver?

Não há receitas mágicas de felicidade. Desconfio dos que anunciam que têm.

 

As perdas na nossa existência são inevitáveis. Quando ocorrem, quase sempre nos deixam perdidos

 
 

 

 

 

 

 

 


Ao longo de nossas vidas, sentamos em inúmeros bancos de escolas para aprender como ganhar!

Assim, passamos pela vida rejeitando as oportunidades  de aprender a  lidar com os únicos fatos previsíveis de nossa  existência.

 

Caixa de texto: Perdas 

 

 

 

 

 

 


Sabemos que a melhor estratégia para derrotar o inimigo é conhecê-lo em sua intimidade.

Mas, quando o inimigo é a perda, preferimos desconhecê-la. Despreparados, afogamos no mar da dor e da tristeza quando mergulhamos nas situações  de perdas.

 

Falar sobre perdas em nossa sociedade é, as vezes,  desagradável e desconcertante. Apesar disso, eu os convido a pensar sobre esta afirmação:

 

Caixa de texto: Perder o medo de perder é condição fundamental para ganhar
 

 


 

 

 

 

Será possível perder o medo de perder? O que fazer para perder o medo de perder? Se pararmos para pensar nessas duas perguntas, vamos descobrir coisas muito interessantes:

A primeira delas é que o tempo é o nosso primeiro inimigo.

 

 
Caixa de texto: O medo de perder mora no futuro.

 

 

 

 

 

 


O futuro é a sede da insegurança. Dele nada sabemos, e tudo podemos esperar. Quem vive no futuro, experimenta ansiedade e medo de perder; por isso se apega a tudo e a todos.

 

Dorme de mãos fechadas para agarrar o tempo porque ele passa e tudo desbota!

 
 

 

 

 

 

 

 

 


O tempo sempre nos enfrenta e nos derrota. Quando queremos que ele passe rápido, porque estamos vivendo as dores da perda, da desilusão, da doença, um minuto, parece durar horas. Quando queremos que ele custe a passar, sentimos as horas passarem em minutos.

O nosso segundo inimigo é a expectativa. A expectativa é o desejo de que as coisas sejam do jeito e no tempo que a gente quer.  A expectativa é a porta do nosso inferno interior... Quanto mais a alimentarmos, mais dores e decepções nós teremos.

Quando criamos expectativas, quase sempre colhemos frustração, raiva e dor.

 

 

A expectativa é igual a morte, a morte do nosso bem estar e da nossa alegria e leveza de viver

 
 

 

 

 

 

 

 

 


Aquele que se alimenta de expectativas torna-se rígido, punitivo e amargurado.

 
Mas como não ter expectativa? É impossível não ter expectativas numa sociedade que estimula o consumo e que cria em nós o desejo de estar sempre tendo coisas.

Mas é possível desativá-las  através da tomada de  consciência.

 

 
 

 


 

 

A ferramenta para desmontar expectativa é a Tomada de Consciência. Se conscientizarmos de que estamos criando expectativa, ela se evapora como o éter exposto ao ar.

 

O terceiro inimigo é a ilusão.

A perda real é a perda daquilo que é objetivo; não pode ser recuperado, mas pode ser substituído por algo que traz outros ganhos.

 

A ilusão é como uma fumaça que turva a nossa vista impedindo-nos de ver a realidade. É impossível apagar a fumaça enquanto não descobrimos onde está o fogo. Sofremos muito mais com a perda das ilusões do que com as perdas daquilo que é real.

Se não separarmos a realidade da ilusão, não conseguiremos elaborar as perdas.

A perda real é a perda daquilo que é objetivo; não pode ser recuperado, mas pode ser substituído por algo que traz outros ganhos.

 
 


Tudo que é subjetivo é ilusório

 

 

O Ilusionista

 

 
 

 

 


A perda é um pacote fechado contendo metade de realidade, metade de ilusão. A chave para abrir esse pacote é perguntar o que, realmente, perdemos quando perdemos algo ou alguém.

 

Exemplo:

      

Maria perdeu João. Ele se apaixonou por Elvira, sua colega de trabalho, e por isso ele a deixou, bem como os seus três filhos.

Ajudador: - Maria quando você perdeu João o quê você perdeu?

Maria, responde: - Perdi o pai dos meus filhos.

Ajudador: - Quando você perdeu o pai dos seus filhos o quê você perdeu? Maria: - Perdi o companheiro que me ajudava a cuidar deles.

Ajudador: - Quando você perdeu o companheiro que ajudava a cuidar dos seus filhos, o quê você perdeu?

Maria:  - Perdi o meu apoio.

Ajudador: - Quando você perdeu o seu apoio, o  que você perdeu?

Maria: - Perdi minha estabilidade.

Ajudador: - Quando você perdeu sua estabilidade, o que você perdeu?

Maria: - Perdi o meu norte, perdi a minha referência.

Ajudador: - Quando você perdeu a sua referência, o que você perdeu?

Maria:-  Perdi o meu caminho, me perdi.

Caixa de texto: Ajudador: - Maria, você não perdeu um marido, mas, alguém com quem você casou para lhe dar direção na vida, porque a sua bússola estava quebrada.

 

 

 

 

 


Ajudador: - Maria ,nós precisamos consertar a sua bússola, para você saber onde você está e para onde você quer e precisa ir.

 

João não queria ser uma bússola.  Ele queria ser um marido, por isso procurou uma mulher que queria um marido.Maria não precisava de um marido, precisava de uma bússola. João, como uma bússola na sua vida, foi uma ilusão. Sem saber o que perdeu, Maria evoluiria para um luto patológico, lamentando a perda de um marido que nunca existiu.

 

Atrás de muitos dos nossos comportamentos há intenções secretas que até nós mesmos desconhecemos porque são frutos do nosso inconsciente. Maria jamais poderia elaborar a perda de algo que não existiu. As nossas ilusões são como fantasmas, imbatíveis enquanto não sabemos que são meramente fantasmas. Na maioria das vezes reagimos como criancinhas com medo de fantasmas diante das nossas perdas.

 O quarto inimigo é a ignorância.

Toda perda gera um luto. O luto pode ser fisiológico ou   patológico. O luto fisiológico tem um tempo de começar e um tempo de terminar. Sempre traz consigo oportunidades de crescimento. As crises podem ser para melhor quando nos conduzem a novas descobertas; para pior, quando nos adoecem. O luto patológico é uma crise que nos adoece.

Em todo luto há fases bem definidas que nos ajudam identificar onde estamos e vislumbrar onde queremos chegar. Sem conhecê-las ficamos perdidos, dando voltas em torno de nós mesmo.

Diante da perda, a primeira fase é de choque. O choque deixa-nos paralisados e insensíveis, liberando endorfina para que  a dor súbita não  nos mate. Esta fase pode ser erroneamente interpretada como falta de amor e frieza emocional. Pode causar julgamentos dos outros e sentimento de culpa em quem perdeu.

 

 
 

 

 

 

 

 


As crianças sobrevivem às perdas  porque  a fase de choque é a regra e a duração, muito longa.

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A fase seguinte é a da Negação. Ás vezes, somos obrigados a esquecer que perdemos para sobreviver à dor da perda.

 
 

 

 

 

 

 

 


Muitas vezes, temos a sensação de que, quando chegarmos em casa, iremos nos encontrar com o ente amado, que já não está lá mais. Em outras ocasiões, temos a impressão de que ele está prestes a chegar.

         

 

 

 

Duvidar dos médicos, dos diagnósticos, dos resultados de laboratórios faz parte desse estágio

 

 

 

 

O terceiro estágio é o da revolta. Re-volta.

 

 

Revoltar é querer voltar as coisas para trás para que  não aconteçam do jeito que aconteceram. A revolta é sempre marcada pela conjunção subordinativa condicional “SE”

Texto explicativo em forma de nuvem: SE                                                

    

 

 

 

O “Se” sempre clama por um culpado...

Se você ................!

Se eles .................!

Se eu ..................!

 

Texto explicativo em forma de nuvem: SEO “Se” é a conjunção do  nada... Não resolve nada , não explica nada e quase sempre complica...!

 

 

 

 

 

O quarto estágio é o da barganha. Aí valem as promessas, os banhos de descarrego, os chás que a vizinha ensinou, as fórmulas milagrosas. Mas,nada disso funciona!

 

 

 
O quinto estágio é o da depressão. No momento, a única coisa que se pode fazer é ficar triste e chorar, até que as lágrimas sequem

 

 

 

 

 

 

 

“Fato é fato e contra fato não há argumento. Não é justo! Não é bom, não é certo. Não engulo! Mas é fato e contra os fatos não há argumentos”.  

Cláudia M. Botelho

 

 

Aceitação é o sexto estágio. Diante dos fatos consumados podemos aceitar ou nos render. Quando aceitamos, entendemos que tudo na vida tem começo, meio e fim. Compreendendo a lei da impermanência, fazemos as pazes conosco, com o que perdemos e com Deus.

 

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Assim, nos tornamos capazes de viver o sétimo e último estágio. A reconciliação; o perdão. Quando vivemos esses estágios, conseguimos elaborar o luto e ficar prontos para os ganhos que sempre sobrevêm às perdas: conhecimentos, novas oportunidades, novos encontros, nova percepção da vida e das pessoas, uma nova maneira de viver.

Quando aceitamos porque não há outra coisa a fazer, na verdade não aceitamos, mas apenas nos rendemos.

 

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A rendição não é uma fase de elaboração do luto, é uma reação de indignação diante do ocorrido, uma forma de revolta.

 

 

Caixa de texto: Assim, temos medo de perder porque não sabemos lidar com as perdas.

 

 

Precisamos perder o medo de perder, ficar íntimos do processo de luto; sair da perda mais fortes, mais criativos e flexíveis.

 

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Perder o medo de viver, arriscar e viver plenamente o aqui e agora deve ser a nossa intenção. Precisamos aprender a lidar com as pequenas perdas, para nos prepararmos para as grandes, quando  chegarem.

 

CARPIE DIEM, diziam os Gregos, digo eu.

 

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